Motivação ou disciplina ? (*)

Com o excesso de informação e de tarefas pessoais / profissionais que temos de fazer hoje em dia, é natural que acabamos não tendo tempo suficiente para fazer tudo o que gostaríamos e acabamos adiando alguns compromissos e/ou ações sem planejar ou pensar adequadamente na importância daquela tarefa no momento que a estamos adiando ou mesmo a curto ou médio prazo.

Para fazer qualquer tarefa ou ação, existem basicamente duas formas de se colocar na situação para que a tarefa ou ação seja efetivamente feita.

A primeira opção, mais popular, é tentar se motivar.

A segunda, uma escolha um tanto impopular, é cultivar a disciplina.

Trata-se de uma daquelas situações onde adotar uma perspectiva diferente da que temos usado, resulta em maiores resultados quase que imediatamente, mesmo que por curto espaço de tempo.

Qual seria a diferença?

A motivação, falando de modo geral, opera sob a presunção, muitas vezes errônea, de que é necessário um estado mental ou emocional particular para que uma tarefa seja realizada, ou seja, vc deve estar motivado para fazer determinada tarefa ou ação.

A disciplina, em vez disso, separa o funcionamento “externo” e nossas obrigações, dos sentimentos e mudanças de humor, então, vc deve realizar a tarefa ou TREINO independente de seu estado emocional ou mental.

As implicações disso são grandes, principalmente se estivermos falando de treinamento, onde a regularidade dos estímulos para a melhora do condicionamento físico é primordial.

Exemplificando: não se deve esperar até se estar em boa forma para começar a treinar, treina-se para se chegar à boa forma.

Quando as açoes são condicionas pelas emoções, esperar um estado de humor ideal se torna uma forma facilitadora de adiamentos e cancelamentos.

Pode-se ate, dependendo da tarefa, esperar pela vontade de se fazer as coisas, mas, no caso de treinamento, vai se descartar a cientificidade e a metodologia do treino.

A essência de tentar se motivar é a insistência na fantasia de que só devemos fazer as coisas que estamos a fim ou com vontade de fazer.

O problema então se coloca da seguinte forma: “Como eu chego ao ponto de estar a fim de fazer o que eu TENHO de fazer, mas, que não estou motivado para fazer agora?”.

A pergunta certa seria “Como deixo meu humor e preferencias de lado e faço AGORA as coisas que eu TENHO de fazer?”.

O ponto chave então, é cortar a ligação entre os sentimentos e as ações e fazer as coisas ou os TREINOS que tenho de fazer, tendo vontade ou não, estando motivado, ou não.

A motivação inverte tudo isso.

Esta perspectiva de “motivação”, de se fazer algo somente quando estamos com vontade de fazer, é o principal motor da epidemia de “ócio / internet / inatividade / inercia” que atualmente ataca a maioria dos países e populações.

A vida e o mundo reais algumas vezes exigem que se façam coisas com que quase  ninguém em sã consciência conseguiria se entusiasmar ou ter vontade, como emprego ou tarefas monótonas ou “sujas”, como remover o lixo ou limpar os dejetos de cachorros e assim a “motivação” se depara com o obstáculo insuperável de tentar produzir entusiasmo por algo que objetivamente é difícil para que nós nos motivemos.

A solução talvez fosse acabar com a sanidade das pessoas.

Ou ter preguiça...

Tentar ter entusiasmo por atividades que consideramos, cada um a sua maneira, chatas e/ou miseráveis, é literalmente uma forma de auto punição psicológica. E repetindo a execução dessas atividades, é inevitável que ocorra algum tipo de depressão ou desmotivação para outras áreas ou afazeres.

Uma situação bem estranha e inquietante é ser bem sucedido na coisa ”errada”, em algo que a pessoa obteve sucesso em área ou tarefa que ela não gosta ou não tem muita apatia.

Nessas situações, tentar reter a sanidade é quase que confundido com fracasso moral: “Eu ainda não amo meu trabalho fútil de tirar um papel daqui e colocar ali, devo estar fazendo algo errado”. Ou: “Ainda prefiro comer bolo e não brócolis, assim não consigo perder peso, mas, talvez eu seja fraco mesmo”. Ou ainda: “Eu devia comprar outro livro sobre motivação, pois, somente esses não estão me ajudando”. O erro crucial aqui é encarar essas questões em termos de presença ou ausência de motivação.

A resposta então seria a disciplina, não a motivação.

Outro problema prático com a motivação é a validade restrita: ela precisa ser constantemente revigorada.

A motivação é como dar corda manualmente numa manivela pesada para através disso obter uma grande força instantânea. No melhor dos casos, ela armazena e converte a energia para uma finalidade particular, mas, tem um fim. Há muitas situações onde a motivação é a atitude correta, onde ficar superanimado e armazenar um montão de energia mental de antemão é o melhor a fazer, como uma competição.

Uma motivação mínima é uma base para o funcionamento regular do cotidiano e para qualquer coisa que exija resultados consistentes em longo prazo.

Em contraste a isso, a disciplina é como uma máquina ou motor, que uma vez colocada em funcionamento, passa a fornecer energia ao sistema sem, no entanto, ter um fim previsível.

A disciplina se autoperpetua e é constante, já a motivação é uma coisa meio aos solavancos e irregular.

A produtividade não exige estado mental.

Para resultados consistentes em longo prazo, a disciplina supera a motivação.

Na motivação tentamos encontrar vontade para fazer as coisas e disciplina é fazer, mesmo sem vontade, o que em termos de treinamento quer dizer muita coisa, principalmente se você tem como objetivo o desempenho ou resultado.

E como se cultiva disciplina?

Construindo hábitos, começando com coisas bem pequenas, como um horário certo de tomar um café ou treinar, algo que se consiga lidar com facilidade, como ir a um cinema ou academia. E, a partir daí, ganhando impulso, reinveste-se nela em mudanças cada vez maiores na sua rotina, como realizar um treino mesmo não estando com vontade ou fazer hoje aquela planilha chata do trabalho que pode fazer ate amanha, construindo, então, um círculo virtuoso de retroalimentação positiva.

Embora interligados, a disciplina pode existir sem a motivação, mas, para existir a motivação, deve existir a disciplina.

 

(*) Texto adaptado do publicado no link: www.papodehomem.com.br/foda-se-a-motivacao-o-que-voce-precisa-e-disciplina, onde foi mencionado que ele foi traduzido do site http://www.wisdomination.com/