Maratona do Rio

Saudações a quem tem coragem!!

Parabens para todos os que completaram a maratona de ontem!!!!!

Completar uma maratona não é a moleza que o mercado tenta te convencer que é, mesmo para quem vai “simplesmente” completar, não é uma tarefa fácil, não só no dia da prova, mas, no seu dia a dia, onde muitas vezes você terá e deixar família, vida pessoal e profissional de lado para treinar ADEQUADAMENTE para “simplesmente” COMPLETAR a prova.

Se para completar a tarefa já é árdua, para fazer tempo, como diz o poeta, o buraco é muito, mas, muito mais embaixo mesmo...

Se for para “simplesmente” completar, você foca um pouco mais nas longas e dois ou três treinos acima de 30 km aparentemente são suficientes para você completar a distancia, mas, para marcar tempo, além das longas, 3 ou 4 acima de 32 ou 34 km, vc ainda terá de controlar a sua semana de treinos e fazer uma quilometragem semanal entre 90 e 120 km, durante 2 a 4 semanas, para te dar uma base e confiança para arriscar a quebra do seu recorde.

Repararam como a coisa toda muda de figura?

Claro que existem diversas metodologias de treino, mas, basicamente é isso.

Hoje temos um grande numero de recursos que nos possibilitam treinar com bastante segurança para terminar uma maratona ou ultra. Ortopedistas, cardiologistas, nutricionistas e treinadores tem boa base de informações para, dentro de suas características individuais, prescrever seu treinamento com boa margem de segurança, mas, para marcar tempo,  você de alguma forma será empurrado para alem dos limites da boa recomendação profissional e ate do bom senso.

 Na maratona de ontem, infelizmente, percebi que somente cerca de 20% dos meus amigos e atletas que saíram para marcar tempo tiveram sucesso na tentativa, o que teria acontecido?

Antes de mais nada pediria para que não desistissem, como disse, eh uma prova dura e a persistência conta muito, talvez ontem não foi o dia, mas, outras com certeza virao.

De imediato, o tempo foi enganador, na largada no Pontal a temperatura estava em cerca de 17 graus, enquanto que no Aterro estava por volta de 29 graus, acho que isso fez que a maioria saísse em um ritmo além das possibilidades sem saber das dificuldades que ainda viriam.

Praticamente todos os que conversei, que chegaram no tempo que queriam, utilizaram a técnica de sair na velocidade em que queriam terminar a prova.

Aqui vale um adendo: a IAAF recomenda os percursos em loop e não o ponto a ponto como o do Rio, para a temperatura não influenciar tanto e, principalmente, para minimizar a ajuda ventos, pois, você pode pegar o vento a favor, mas, depois vai pegar contra e vice versa, sendo que, pelos relatos que recebi, muitos tiveram problemas com o vento contra em Ipanema e/ou Copacabana.

Outro ponto interessante refere-se a umidade relativa do ar.

Nesta faixa de temperatura, 17 a 29 graus, a umidade só começaria a ser realmente um problema serio a partir de 70%, o que pode ter acontecido na Orla. O problema disso é que a troca de calor com o meio ficaria prejudicado, aumentando a temperatura corporal, mas, não tenho como afirmar se, de fato, a umidade passou desse patamar na prova.

Tambem percebi o uso de uma tática de prova que julgo perigosa: que é a administração da queda de velocidade e performance, que muitos teimam tentar ou prever. Depois dos 34 ou 36 km, já quase esgotados, não temos como dizer com segurança que vamos deixar o ritmo cair de 5min para 5min20seg por km. La no 37º km esses 5min20seg viram 6min ou 6min30seg por km com uma impressionante facilidade. E cadê as pernas para reagir? Nesse ponto, ate mesmo por questões de sobrevivência, por mecanismos complexos e inconscientes, sua mente começa a te induzir a diminuir ou ate mesmo a parar a prova. Mesmo sendo algo perfeitamente treinável, penso que esta tática de prova tem poucas chances de dar certo, além de ser angustiante começar a ver uma quantidade enorme de atletas de passando no final da prova.

Tambem observei nos dois postos de agua que eu fiquei assistindo a prova, que boa parte dos corredores não bebiam agua, o porque exatamente eu não sei, talvez, utilizassem pontos de hidratação fora os oficiais da prova ou que usassem cinto ou mochila de hidratação, mas, além da hidratação em si, a agua jogada no corpo, ajuda a diminuir a temperatura corporal.

Felizmente, não ouvi reclamações entre meus amigos e atletas, sobre o “muro” dos 32 / 35 km, que, continuo a achar que é coisa que colocaram na cabeça do mal treinado... De fato existem momentos que o seu cérebro se “enche” de tudo e fica te sugerindo a parar, mas, para isso que você treina, para passar por todos esses momentos, então, a gente começa a perceber a relação do “muro” com a inadequação dos treinos realizados.

Aproveite que as memorias estão bem frescas e converse com seu treinador a respeito, com certeza boas licoes serão tiradas para a próxima!!!

Treinamento desportivo é uma ciência, no entanto, a experiência adquirida e vivida por seu treinador com outros atletas e ate mesmo com ele próprio, aumenta a quantidade de subjetividade na questão, o que então eleva o processo de treinamento desportivo a categoria de ARTE...